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sexta-feira, 8 de abril de 2005

Inteligência humana: Superdotados podem não se dar bem na escola

Pesquisas revelam que as crianças com alto grau de inteligência também tiram notas baixas e têm dificuldades de relacionamento


O conceito de superdotação depende de cada cultura. Para os gregos, os superdotados eram os oradores. Platão já se interessava em descobrir jovens mais capazes e prepará-los para a liderança do Estado. Entre os romanos, eles exerciam a função de engenheiros ou soldados.
Com a descoberta do teste de Q.I., o quociente de inteligência, conseguiu-se estabelecer que são superdotados somente os indivíduos que atingirem mais de 130 pontos no teste. Diversos institutos se empenharam para definir uma taxa de incidência de superdotados na população mundial.
Recentes pesquisas indicam que entre 1% a 2% de toda a população tenha facilidade no aprendizado. Especulou-se também que o número de crianças inteligentes era maior nos países desenvolvidos. O que não é uma verdade absoluta. A taxa não depende da renda per capita dos países, mas dos estímulos e incentivos realizados pelos pais antes da idade escolar.
Mesmo assim a consciência de estimular os filhos aos estudos é mais comum nas famílias de classe média, que tem maior acesso à informação. No Brasil, a estimativa é de exista 1,5 milhão de superdotados.
Estímulos
É fato acreditar que estímulos precoces originam crianças superdotadas. Mas esses estímulos ainda que saudáveis podem transformar os pequenos em adultos. Geralmente, os pais criam uma agenda para os filhos. Entre as atividades programadas estão os cursos de línguas (principalmente inglesa e espanhola), prática intensa de esportes, aula de música e instrumentos musicais. Os pais precisam entender que deve haver um momento para estudar como um período para brincar. A diversão também é uma forma de aprendizado que estimula a percepção infantil.
O aparecimento de crianças com capacidade intelectual muito acima da média não depende de uma técnica específica de treinamento ou memorização. Isso está relacionado a características próprias do indivíduo manifestadas ainda no útero. Por isso os neuropediatras acreditam que a inteligência seja proveniente de um fator genético.
Todo aprendizado é resultado de um processo associativo. A partir de dois ou mais estímulos, há a união das informações que gera um conceito. Para que qualquer criança possa começar a ler é necessário um pré-requisito: a lateralidade. Uma criança que não sabe diferenciar o lado direito do esquerdo não consegue organizar mentalmente o sistema de leitura ocidental que estrutura frases e palavras da esquerda para a direita. Os superdotados nascem predispostos a compreenderem o sistema da lateralidade mais cedo e por isso armazenam mais facilmente informações consideradas complexas para o pensamento infantil.
Comportamento
As crianças superdotadas sempre foram alvo de discriminações e preconceitos sociais. Por geralmente possuírem um comportamento crítico e estereotipado, muitas vezes são vistas como desajustadas ou desequilibradas emocionalmente. Os portadores de altas habilidades (PAH), como são denominados hoje, são curiosos, têm grande capacidade de concentração, entre outras características.
Quando a criança com altas habilidades tem irmãos considerados "normais", os pais devem prestar maior atenção à criação de todos os filhos. Essa situação é uma boa oportunidade para trabalhar a diferença. Geralmente as famílias desprezam as vontades e gostos dos filhos para obrigar o superdotado a estudar. Comparar a eficiência de cada um na escola não é aconselhável. Cada criança possui habilidades especificas. Uma criança que gosta de inventar estórias com uma narrativa coerente pode não saber resolver uma simples subtração.
Os superdotados também tiram notas baixas e muitas vezes nem conhecem seu potencial. Neste caso, o rendimento escolar não é diferente ao dos outros alunos. O tédio do estudante, a má organização do currículo escolar e o despreparo dos professores podem reduzir a capacidade intelectual.
Essas crianças precisam das mesmas coisas que as outras: acolhimento, compreensão, sentimento de pertencer a um grupo social (escola ou família). Em alguns casos, o superdotado procura diminuir seu talento procurando ficar mais parecido com o grupo que deseja estar incluído. O resultado é um número de adultos que desperdiça potencial intelectual por dificuldade de se relacionar com o mundo exterior.
Muitas vezes há a procura pela companhia de pessoas mais velhas, na tentativa de encontrar parceiros com o mesmo nível intelectual ou o mesmo tipo de interesses. Já algumas crianças superdotadas precisam ficar sozinhas, talvez mais do que as outras crianças, para satisfazer seus interesses pessoais.
A resistência em aceitar regras é normal, pois muitas vezes eles não as consideram justas nem necessárias. Os pais devem analisar os limites que estão impondo e explicar ao filho os motivos dessa conduta.


Será que seu filho é superdotado?

Descubra se seu filho possui algumas destas características e se inclui no mundo dos geninhos.
• Rapidez e facilidade para aprender, abstrair ou fazer associações;
• Criatividade;
• Capacidade para analisar e resolver problemas;
• Independência de pensamento;
• Habilidade excepcional para esportes, música, artes, dança, informática ou outros talentos;
• Curiosidade e senso crítico exagerado;
• Senso de humor;
• Investimento nas atividades de interesse e descuido com as demais;
• Bom relacionamento social e liderança;
• Aborrecimento com a rotina;
• Hipersensibilidade.
Níveis de superdotação

Os Portadores de Altas Habilidades (PAH) podem ser classificados em diversos estilos de acordo com o Ministério da Educação e da Cultura. Mas nem sempre se encaixam em somente uma determinada classificação.
intelectual: costuma ser flexível, independente e mostra fluência de pensamento, produção intelectual, julgamento crítico e habilidade para resolver problemas;
social: revela capacidade de liderança, sensibilidade interpessoal, atitude cooperativa, sociabilidade expressiva, poder de persuasão;
acadêmico: demonstra boa capacidade de produção, atenção, concentração, memória, interesse e motivação pelas tarefas acadêmicas;
criativo: tem facilidade para encontrar soluções diferentes e inovadoras. Exprime-se bem, é fluente, original e flexível;
psicomotricinestésico: destaca-se pela habilidade e interesse por atividades físicas e psicomotoras, agilidade, força e resistência, controle e coordenação motoras;
especialmente talentoso: esse indivíduo tende a se destacar nas artes plásticas, musicais, literárias e dramáticas, revelando uma capacidade acima da média das pessoas em geral.


(08/04/2005)

Um gênio admirado pela família

Com seis anos garoto superdotado é atraído pelas novas tecnologias


Rafael, de seis anos, é um garoto hiperativo que surpreendeu toda a família quando começou a ler algumas letras aos três anos. Na época, a preocupação era com a formação da personalidade do garoto. Somente em alguns momentos uma das tias sentava ao seu lado para despertar o gosto pelo estudo. Em pouco tempo, as primeiras palavras foram decifradas e Rafael foi matriculado numa escola infantil. Seu ótimo desempenho revelou que Rafael é um dos poucos brasileiros superdotados.

A enorme curiosidade faz com que os superdotados procurem campos pouco explorados pelos outros. Rafael é fascinado por videogames. Ele conseguiu terminar um jogo em um dia. "O primo dele demorou uma semana para chegar ao final", explica sua irmã Graziela Castro.

Rafael parece dialogar com as novas tecnologias. Quando a família decidiu fazer uma assinatura de televisão paga, naturalmente teve dificuldade com a instalação do aparelho decodificador. Como acontece com todo brasileiro, o manual de instruções pouco esclareceu e a saída era tentar até conseguir. Depois de algum tempo todos desistiram, menos o notável Rafael. "Nosso avô ficou horas tentando e o Rafael não levou mais do que dez minutos", diz a irmã com grande satisfação.

Na escola o esperto Rafael apresenta um notável desempenho. O relacionamento com os colegas é de real companheirismo. Ele conquista muitos amigos, só que em determinados momentos não lança mão de suas vontades ou opiniões. "Às vezes ele briga com os amigos porque é muito teimoso. Se alguém não concorda com ele não é mais amigo", revela Graziela.

A irmã comenta que Rafael não é uma criança agressiva. Somente em algumas ocasiões sua mãe esteve na escola para conversar com a professora sobre as discussões de Rafael na sala de aula. Outra dificuldade é a insistência do garoto questionar as lições. "Quando ele acha que a professora está errada diz que não vai aprender errado e cria sua teoria", explica a irmã.

A família nunca procurou apoio psicológico para o garoto. Todos sabem que é importante incentivar seu interesse pelo conhecimento. Eles acreditam que não podem influenciar na escolha de sua profissão. "Ele ainda não disse o que quer ser no futuro, mas ainda é muito cedo para pensar nisso", conclui Graziela.