Rádio

sábado, 24 de novembro de 2012

UE 50 anos: crise econômica, separações e desgaste político


Mais de cinco décadas depois de estabelecidos os ideais da atual União Europeia pelo Tratado de Roma para a integração socioeconômica do Velho Continente, o bloco passa por período de desgaste nas relações internacionais e de crise nos setores produtivos e de serviços gerando altos índices de desemprego nos países-membros e de recessão econômica.
Apesar das tentativas de unificação do bloco, consolidando um mercado comum forte, competindo com potências mundiais como Estados Unidos e Japão e para manter posição perante o crescimento de países em desenvolvimento como Brasil, China e Índia, a União Europeia foi abalada com a crise financeira mundial iniciada há cinco anos em que grande parte da população americana perdeu sua moradia e seu emprego.
Mesmo que a União Europeia tenha sido implantada pacificamente, os países-membros tiveram na História suas fronteiras definidas não somente por acordos diplomáticos, mas por guerras movidas pelo interesse que hoje estão acentuados: o de ter um mercado local forte, estimulando a produção e o consumo interno e também de alcance para países mais fracos fora do continente.
Sem mesmo ser atingido pela crise mundial, o crescimento do bloco já se torna fragilizado por buscar uma integração entre membros com acentuadas diversidades econômicas: comparando-se, por exemplo, Grécia e Portugal aos ricos Reino Unido e Alemanha ou os países do Mediterrâneo de forte influencia comercial com países de menos expressão do leste europeu como Estônia e Polônia.
Além destas dificuldades, a difícil superação da crise se agrava com a implantação de pacotes econômicos estabelecidos por dirigentes representados em sua maioria por países que formaram o bloco (Velha Europa) e deixando pouco espaço para representação dos novos membros que também buscam atender seus interesses. Contribui para debilitar a crise o fracasso na elaboração de uma Constituição única e o fraco sentimento de identidade dos cidadãos que não se enxergam como participantes/integrantes de uma potência continental, mas se veem fragmentados por suas fronteiras.
O período de recessão em que Espanha, Portugal, Grécia e Itália se encontram com os altos índices de desemprego possibilita o surgimento de manifestações e greves gerais apoiadas por partidos trabalhistas contrários às políticas adotadas pela UE. Nas ruas os manifestantes cobram condições de subsistência, manutenção da democracia, e que cada país tenha autonomia em suas decisões políticas voltadas às suas reais necessidades e não submissas às nações mais ricas.
 O capitalismo também passa por uma crise sistêmica em que os blocos buscam melhor inserção, desempenho e crescimento competitivo no mundo em que os empregos exigem mão de obra cada vez mais qualificada, onde não é possível manter os níveis de produção para atender ao consumo gerado pelo crescimento desordenado das metrópoles e ainda investir em avanços tecnológicos.
A União Europeia aposta atualmente em criar um regime de dependência entre as nações componentes do grupo de forma impositiva com a instalação de governantes escolhidos não somente por sua importância local, mas sim que estejam mais voltados aos interesses dos líderes do continente.
Isto reflete no aparecimento de movimentos separatistas na Espanha (Catalunha), Bélgica (Flandres) e Reino Unido (Escócia) contrários às regras políticas e econômicas impostas. Estes movimentos idealizam uma economia forte através da criação de moedas próprias valorizadas, redução de suas dívidas e permanência no bloco econômico com participação no poder. Mesmo havendo esforços da União Europeia para conter a separação, que vem ganhando força, a independência dos territórios permitiria mais desgaste ao grupo com perdas econômicas para o continente, despertaria os demais países para uma redefinição de fronteiras por seus aspectos territoriais, políticos, sociais e econômicos e tiraria o foco dos acordos necessários para a superação da crise.


Bibliografia consultada

“2012: a crise americana cinco anos depois”. Carta Maior, 24 de novembro de 2012: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5421. Página acessada em 24 de novembro de 2012.


“Vantagem para os boys da velha Europa”. Presseurop, 23 de agosto de 2010: http://www.presseurop.eu/pt/content/article/321731-vantagem-para-os-boys-da-velha-europa. Página acessada em 24 de novembro de 2012.

“Revoluções fazem-se na rua”. Jornal de Notícias, 14 de novembro de 2012: http://www.jn.pt/multimedia/video.aspx?content_id=2886360. Página acessada em 24 de novembro de 2012.
  

A bancarrota capitalista sacode a América Latina: por uma alternativa operária e socialista”. Partido Obrero, 25 de outubro de 2012: http://po.org.ar/po1245/2012/10/25/a-bancarrota-capitalista-sacode-a-america-latina-por-uma-alternativa-operaria-e-socialista/. Página acessada em 24 de novembro de 2012.


“Soberania da Catalunha desagregará a União Europeia?”. Voz da Rússia, 21 de novembro de 2012: http://portuguese.ruvr.ru/2012_11_21/soberania-catalunha-fim-uniao-europeia/. Página acessada em 24 de novembro de 2012.


“Perito apresenta razões do fracasso da cúpula da UE". Voz da Rússia, 24 de novembro de 2012: http://portuguese.ruvr.ru/2012_11_24/porque-fracassou-cupula-da-ue/. Página acessada em 24 de novembro de 2012.



terça-feira, 6 de novembro de 2012

As responsabilidades do gestor público liderando agentes de mudança


            A figura do administrador público centralizador, inserido em uma hierarquia restrita e agindo por procedimentos cíclicos tem passado por certo desgaste. A gestão pública tem apresentado necessidade de se transformar, adaptando-se cada vez mais aos anseios dos cidadãos. Estes, cientes de que como integrantes de um meio social as ações públicas devem estar pautadas para suas necessidades, sabem não só cobrar pelo que lhes competem, mas de quem está atribuída esta responsabilidade.
            Muito desta mudança é devida sim ao desenvolvimento social e econômico da população, mas também de fins políticos da modernização administrativa baseados em modelos das empresas privadas sem se esquecer do valor público, das ações públicas, dos procedimentos. A necessidade desta mudança provoca a reflexão sobre quais impactos os papéis do agente público e seus valores éticos e morais podem sofrer.
            O valor gerado ao cidadão pelo serviço público é fruto de um trabalho coletivo em que as etapas e os processos são modelados através de relações pessoais dos servidores. E realizar uma reforma administrativa em que o funcionário é participante das decisões, trazendo-lhe autonomia e flexibilidade de ações pode significar um ganho significativo para atender às demandas sociais de forma mais abrangente e mais próxima da realidade da população. Com a descentralização das ações, torna-se possível desdobrar políticas públicas em metas de governo índices de avaliação das condições do desenvolvimento humano promovido.
            Mudar os papéis da gestão pública, da filosofia organizacional do serviço público concedendo maior poder de escolha ao agente público semelhante aos gestores de empresas privadas desenvolve uma visão coletiva da cidade pautada na individualidade do cidadão, valorizando-a. Pensando no cidadão como fim do trabalho do servidor público, a descentralização da administração pública valoriza mais as ideias, a reflexão sobre os procedimentos do que uma mudança em que a hierarquia de trabalho fique pulverizada em camadas que foge ao conhecimento do próprio funcionário.
            Este desafio de compartilhar a responsabilidade de administrar o serviço público agregando valor sem se afastar dos princípios de equidade promove que o funcionário busque significado em seu trabalho cotidiano. Agindo com mais autonomia, o servidor torna-se mais produtivo em prol do bem-estar coletivo pensado nas políticas públicas. Assim, ele não é somente agente público, um instrumento da gestão pública, mas um promotor das ações planejadas executadas em conjunto, agregando qualidade no atendimento às demandas sociais.
Ao mesmo tempo, não é possível relevar que quando se qualifica os interesses particulares da população atribuindo ao servidor autonomia em decisões fica aparente que o conceito sobre o que é público sofre alguma alteração. Neste momento é preciso pensar que o gestor é parte da sociedade e pode privilegiar setores afins. E, por isto, há também neste processo de modernização a necessidade de dispor de critérios para responsabilizar o funcionário público por suas ações. Como um funcionário público poderia agir com livre-arbítrio em seu trabalho sem que houvesse além do respeito à moralidade o cumprimento das regulamentações, das leis?
Esta responsabilização precisa ser encara mais como medida que garanta uma uniformidade das ações realizadas pelos diversos servidores e gestores do que restritiva à criatividade dos mesmos ou como instrumento punitivo aos desvios de conduta que possam surgir.  Respeitar a uniformidade das ações públicas aqui se torna uma questão complexa que não padroniza o perfil do servidor de acordo com os interesses da gestão, mas que o conscientize de seu papel num ciclo de reflexão dos processos de trabalho. Torna-se um indivíduo que se adapta ao contexto político influenciando e sendo influenciado nas decisões. É preciso lembrar que o agente público produz os serviços públicos e ainda como cidadão utiliza estes mesmos serviços. Por isto, justifica-se democraticamente a sua participação na modernização da gestão pública e a importância das ações formuladas pelo Estado para garantir o acesso de todos a estes bens produzidos.
Conciliar responsabilidade pessoal com responsabilidade administrativa para o gestor público pode ser analisado como um paradigma em conflito fruto desta necessidade de modernização do que um combate de forças. Até porque considerando a diversidade de valores daqueles que atuam na administração pública não restringe a determinados padrões de comportamento/ideais/ações. E esta mesma necessidade indica a existência de um profissional multivalente: um cidadão que sabe das suas carências pessoais, busca conquistá-las, é ciente de seu contexto político e social e é representante público produzindo a partir da legalidade para atender a população. Ele é integrante-representante da cidade e isto deve transparecer em sua carreira e em sua vida particular. Um agente de mudança de conceitos, portanto, que sua responsabilidade possa ser compartilhada.